Saudade

For what purpose, then, do I make a man my friend? In order to have someone for whom I may die, whom I may follow into exile, against whose death I may stake my own life, and pay the pledge, too. [1]

Dois corpos e uma só alma, diria Aristóteles. Amizade, em última instância, implica na completude do ser em sua mais íntima importuna mediocridade. Aquilo que permite a ele ser aquilo que ele realmente é. Amizade: leva-te à verdade, traz-lhe à realidade. Faz-se o todo com uma plenitude do processo do devir, do deixar-de-ser. Embate dos corpos que não faz-se como tal: se luta pela vida.  Mas a perda… a perda do amigo é a perda de si mesmo. Perder sua alma; morrer mas continuar a existir. Esvaziado de si mesmo. Finjas viver, faz-te morrer! A derradeira prova da amizade: sobreviver enquanto morto.


Amigo, incorrespondente, sempre-lhe é. Fechais os caminhos e as portas a si mesmo. Percebe-se que nos mais precisos momentos em que se é, a recordação permanece como uma forma de envenenamento. É impossível resistir à angústia, caro leitor. Pensas que sou um idiota, alguém cheio de si mesmo. O subsolo triunfa sobre o homem, sempre. Vazio permanece-se. Esta angústia provocada pela amizade se encontra em um terreno destruído. Sim. O que resta é a saudade enquanto tal… da proximidade de tua amizade.  Amizade – amor. Amor que cresce lentamente, nos campos do estar-aí. Fértil, este o é. Permeia a vida como espectro – da morte. Que nos resta? Sofrer a dor. Pretende-se à verdade, de forma enganadora. “Honestidade” ante o outro reflete a decadência da moral. Seja em sinal que o uno está a se desfazer… mas como o refazer? Em seu lugar, desistir da verdade, da amizade? O sangue morto lhe move, astuto leitor, em um ultimato: o ato existencial derradeiro seria o de ativamente assegurar que a essência da verdade do meu ente seja captada completamente.


Mas não se pode negar, senhores, como a amizade é um pilar para a continuidade da vivência. Por amigo, recordemos: aquele que não é somente para-si mas para, propriamente, o outro! E aqui resta a nossa condição. Premeditados pela dor, sejais teu próprio fruto. A árvore do sofrimento provê seus frutos; aqueles que assim os consomem, banham-se e aceitam sua mortandade. Ainda assim, podemos nos exaurir com estas palavras frias e vazias. Tateias no escuro em busca do significado. As sombras se fazem mecanicamente. Leia as cartas dos que cessaram de ser por suas próprias decisões. Percebo o quão inferior são as minhas palavras. “Saio da vida para entrar na história!”, o nada do deixar-de-ser deve apenas aperceber o quão sua memória está; lembra-te dos que deixou para trás e os liberta do sofrimento e da dor. Esta é uma decepção aterrorizante.

Honrar aos outros, Daniel, é lembrar da amizade.


  1. Seneca. Moral letters to Lucilius. Letter 9 (On Philosophy and Friendship),  §10.
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