Páginas de um diário

Afirmai o significado sem antes se atentar ao horizonte do sentido apresentado na clareira do ser. Equivocai-vos. Este significado, o objeto da verdade em si mesma, pode apenas ser captado pelos entes que caminham em direção à esta abertura, esta clareira… No meio da densa plenitude de significados, ela permite o ser a observar a sua própria condição de existência – desprovida de uma autenticidade própria. Sem tal clareira, o ser permite a si mesmo apenas o nada: o emaranhado de significados alheios destituí-o de sua própria essência; transpõe-o na infinitude de entes que o sufocam. Perde-se a essência, querido leitor. Perde-se a verdade. Que servem os significados que lhe são alheios? Postos ao vosso redor, sucumbirão à vossa ira! O ser necessita da verdade… não dos significados. Mas, bah. Escrevas com o sangue da dor, caro leitor, e estarás a escrever sempre com vossa verdadeira natureza. As mãos clamam o fim da angústia; os pequenos pensamentos em aforismas hão de ser descartados em favor de um retorno dialético à prosa em si.


Como sereis conciso ao mesmo tempo que permites a existência de um ‘campo’ de sentidos existir junto a si? Não haverá modo de determinar tal fato, ou permitir que seja apresentada uma resposta. A extensão do pensamento indica um aprofundamento, um certo tipo de paciência em digerir cada frase, cada pensamento. É, decididamente, o fim da angústia e da ansiedade [pelo passado] que permite a criação. Como pensar, se o que é apresentado na abertura se faz na forma de um puro e indestrutível terror? Apenas em rasas frases, amigo, no sentido de curtas e desprovidas de um dado desenvolvimento inteligível… Mas escrever enquanto se é afogado na angústia é, deveras, prazeroso. A dor e o prazer adoram a si mesmas.


O pervertido assume a posição de amigo – do mais perfeito amigo: sua missão, delegada por si à si mesmo, é servir sua condição egótica. Ah, mas com o intuito de aterrorizar o outro. A amizade é apenas sua ferramente para ‘servir’ seu amigo de forma escatológica. Plena destruição. Objetivo de reassegurar sua pretensão à um tipo de reflexiva inferioridade, que pode ser apenas alcançada pelo uso explícito da mentira desconexa. O iludido pensa iludir os outros. Seu ódio pelo que se abre ao ser, pela essência da verdade, é seu combustível. O ‘bom’ e ‘belo’, para este indivíduo em questão, é vossa morte; sua vida, resume-se em fingir morrer. Pretende-se a vida para re-encenar a morte. Farsa em última instância, poesia ulterior. O poeta invoca a fervura do sangue, meu caro.  Este enuncia suas próprias palavras como sendo a reprodução divina do logos; mas mesmo assim, corrompe-as com suas relativas desconstruções deslocalizadas. Consciente disto, ele continua! Um ser-para-a-morte? Não. O poeta é um narcisista – um amante de si, que negativamente reafirma sua própria condição, evidentemente superiora, através do enforcamento da essência… do significado.

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