Imperialismos

1. “Imperialismo: fase superior do capitalismo”, Vladimir Lenin.

Em seu texto, Lenin busca <<decifrar>> as básicas fundamentações de um período de desenvolvimento do capital (e do capitalismo por si), que mescla em sua condição um assentamento geral da classe dominante e uma surgente inquietação nas classes exploradas. Decifrar como as condições do desenvolvimento do capitalismo se faz em um momento que a mundialização extensiva das forças produtivas, das relações sociais, dos meios políticos capitalistas se faz uma regra posta em prática, é o objetivo do texto.

Esta mundialização do capital é dada em uma etapa do capitalismo chamada de Imperialismo. Pode ser caracterizada através de uma cadeia hierárquica que retroativamente determina uma a outra categoria descrita.

A mundialização em si é uma característica intrínseca ao capitalismo, porém sua forma decorrente se faria uma nova mutação das forças exploradoras em delinear sua hegemonia. Em via de regra, podemos caracterizar a mundialização desta forma:

      1. Concentração e centralização de capitais, implicando na formação de monopólios e oligopólios;
      2. Fusão do capital produtivo (industrial) com o bancário, e vice-versa, constituindo o capital financeiro;
      3. Aumento da importância das “exportações de capitais” (IED e empréstimos internacionais), em oposição ao comércio tradicional.

Na categorização I., temos uma característica inerente do próprio capitalismo, que fundado na livre concorrência inevitavelmente se aplaca no seu oposto: a live competição permitiria uma “eliminação seletiva” das empresas, resultando em uma larga concentração de capitais em mono/oligopólios.

A concorrência se basearia em uma incessante corrida entre as próprias empresas nos campos de gestão e de inovações tecnológicas; busca-se, precisamente, reduzir ao máximo os custos relacionados à mão de obra e da produção, materializado na aplicação de robôs e máquinas em geral. Aumenta-se o grau de exploração, aumenta-se a extração da mais-valia relativa, e se aumenta produtividade; as contradições entre capital e trabalho, e mesmo entre capital e capital, são aprofundadas nas concentrações decorrentes.

Em II., temos a consequência do crescimento do acúmulo do capital, que indica na fusão orgânica entre empresas produtivas e bancos, possibilitando a junção dos lucros gerados pelos juros bancários e pelo próprio lucro industrial em uma mesma corporação, multinacional ou transnacional. O endividamento das empresas é o ápice de tal categoria, pois indica o total poderio que os bancos adquiririam em relação a elas; resultando na compra de tais empresas, quase falidas por dívidas, pelos seus cobradores.

Na categoria III., estabelece-se o surgimento das empresas trans e multinacionais, produzidas através, e pelos, IEDs (investimentos externos diretos). Por empresas transnacionais se defina aquelas que plantam, com seu próprio capital, filiais em outras localidades do planeta, mas mantém total controle sobre estas filiais (em relação ao modo, qualidade e quantidade da produção); por empresas multinacionais, têm-se aquelas que atuam de forma ‘descentralizada’, fazendo uso de outros capitais para participar de seu empreendimento externo, incluindo até capitais nacionais.

Estas caracterizações são próprias do capitalismo, que resultam do seu modo produtivo e organizacional que necessita para sua constante produção e reprodução. O Imperialismo se faz uma decorrência de tal ação, na forma de novos modos de exploração – agora mundializados pelo próprio capital –, mas que se colocam baseados em duas determinantes categorias:

1. Formação de uniões internacionais capitalistas;

2. Término da partilha territorial (colonial) do globo pelas potências centrais.

Na primeira decorrência, as uniões internacionais significam a formação de cartéis, onde capitais de diferentes nacionalidades e origens se fundem. Estas fusões não se dariam de forma permanente (exceto no caso da OPEP); as empresas de dado ramo, ou setor, promoveriam um acordo entre si, onde todas ofereceriam produtos com preso [quase] iguais: é a concretização de um acordo de não concorrência.

A forma de exemplificar esta categoria, poder-se-ia fazer uso do caso da CECA, coordenação europeia de caráter supranacional da produção de carvão para fins energéticos, criada anteriormente à criação da própria União Europeia. Esta, que surge na forma primária do estabelecimento de um “mercado comum europeu” (Tratado de Roma, 1957), permitindo a livre circulação de produtos sem limitações alfandegárias; ou até mesmo na CEE (Comunidade Econômica Europeia), responsável pela liberalização de energia e matérias-primas dentro do território europeu.

A segunda categoria permeia a condição do domínio territorial e econômico colonial. Ao passo que o capitalismo se desenvolveria e expandiria, não necessitaria mais das colônias que criara; o colonialismo se apazígua na descolonização do pós 2ª Guerra Mundial. Entretanto a descolonização permite a instalação de novos tipos exploratórios pelas antigas e não mais colônias, na forma da ação direta das corporações em conjunto com os Estados liberais, implicando na continuidade do partilhamento territorial do globo, não mais através de guerras diretas entre os países coloniais, mas sim através da competição corporativa pelo uso da própria propriedade privada estrangeira.

Ao passo que o Imperialismo se pôs como força derradeira do capitalismo, sua inequação ainda se faz presente em tempos atuais, tendo como exceção a partilha territorial por empresas ou Estados, já que a partilha se encontra finalizada, passível de remendos e leves acomodações.

A fase Imperialista implica, ainda, na fomentação de guerras entre as potências que se veem despojadas do jogo mundial capitalista. Meio, pelo qual, tais nações buscariam, ou buscam, aproximar-se das condições econômicas dos países que já se encontrariam em um estágio mais avançado na captação de mais-valor, de modo geral. Eis que, a consequência da mundialização desigual e combinada do capitalismo, em sua fase Imperialista, fomentaria o surgimento do próprio Fascismo.


2. “As teorias do Imperialismo”, Michael Barrat Brown.

O Imperialismo deve ser visto como uma forma política e um conjunto de ideias que nascem a partir de um nível de desenvolvimento produtivo tecnológico, e de uma estrutura econômica que se relaciona a este desenvolvimento. Tal estrutura, no capitalismo, dá-se na forma das relações sociais, entre os proprietários do capital e os proprietários da força de trabalho (que são excluídos da possessão material de propriedades). A essência de tal desenvolvimento tecnológico é que o maquinário pode ser, constantemente, utilizada para diminuir os custos produtivos do capital, diminuir o tempo de trabalho efetivo e aumentar a produtividade em geral. Este capital, aplicado na compra do maquinário, dos materiais e da força de trabalho, com o objetivo de produzir mercadorias, poderia ser exponencialmente expandido, para além das possibilidades mercantis. Nesta sociedade, baseada na competição do livre mercado, os proprietários que buscam continuamente expandir seu capital, são os que sobrevivem; a força que move tal sociedade é a competitividade que permite a acumulação do capital.

O objetivo do capitalista é aumentar o seu poder cumulativo do capital através do aumento da extração eficiente da mais-valia, mas este objetivo constitui uma tendência de restringir o consumo dos trabalhadores e dos próprios proprietários; o desenvolvimento tecnológico não permite a real diminutiva do tempo, ou quantidade de trabalho, empregado pelo proletariado, mas implica diretamente na diminuição de seus salários, e no engrandecimento de sua condição de ser expropriado.

O desenvolvimento das colônias se tornou o exemplo explícito da necessidade do capitalismo industrial, que se desenvolvia abertamente ao mundo, em realocar grandes quantidades de trabalhadores membros de uma larga massa desempregada. A burguesia se findaram em destruir, ou escravizar, as populações locais nas colônias, com o intuito de explorar e estabelecer plantações, minas, indústrias, portos, para realocar sua extração acumulativa de capital; sua fundamentalidade se deu na apropriação das terras, e na sua venda À imigrantes, que se introduziriam em uma espécia de condição servil, fora de sua metrópole.

Imperialismo, é, portanto, uma extensão do capitalismo industrial, que toma a forma da produção de mercadorias e transforma o próprio trabalhado em uma mercadoria. Produção e reprodução das relações capitalistas, da condição inerente tanto à burguesia quanto ao proletariado. A força por detrás tal afirmação é a competição estabelecida entre a própria burguesia, até em condições oligopólicas, e sua necessidade para encontrar não apenas novos mercados e matérias-primas, mas novas fontes que permitiriam uma maior proveitosa acumulação de capital, sem o desenvolvimento histórico da classe trabalhadora para re-clamar sua condição.

O capitalismo possui em sua própria natureza uma força expansionista, cristalizada na produção e reprodução do capital. Sua forma imperialista surge da sua operação essencial, que torna as motivações individuais em fins. A competição se torna maior entre as grandes empresas, com tendências monopolistas que conduzem a maiores concentrações de capital; o livre comércio se endurece em uma divisão mundial artificial, que desenvolve os centros industriais modernos, e retrocede no resto do mundo; recursos são utilizados com pouca eficiência; crises periódicas permitem intervenções estatais para reestruturar o próprio capitalismo.

A ação originária do Imperialismo está na concretização do capitalismo em buscar novos modos de realizar a extração de mais-valia, num processo de acumulação competitiva entre os capitalistas. Estes, envolvem-se em um duplo conflito bilateral: primeiro, na relação entre capital e trabalho na produção, e segundo na troca de produtos no mercado; e em dois, a acumulação do capital e no emprego do trabalho como mercadoria. Na acumulação do capital existe, primariamente, um conflito entre o aumento produtivo, a redução dos custos, e uma tendência à queda dos lucros; ainda, em segundo lugar, há o conflito entre o aumento da produtividade de mercadorias e a lucratividade realizada através da venda dos produtos para uma massa de força de trabalho. Sobre o emprego do trabalho como mercadoria, existe primeiro o conflito entre a necessidade dos trabalhadores em obter bens materiais com seus salários, e a alienação do trabalho em si; e em segundo, há um conflito entre a produção das mercadorias para troca e as necessidades dos seres humanos para certos valores de uso.

Alguns destes conflitos são resolvidos temporariamente por crises de superprodução, onde o capital se destrói e se reconstrói, onde também o trabalho é desempregado e remobilizado. A competição e a busca da mais-valia, para objetivar a cumulação, leva a burguesia a desempregar massas de pessoas e estender seu alcance.

Polariza-se o mundo em locais que por um lado demonstram aonde a riqueza de dado setor se acumula, aonde a produção de mercadorias se dá junto com a produtividade acompanha as condições do trabalho, e por outro, onde a reserva de trabalho é restringida por setores, substanciando sua pobreza geral, com o mínimo possível de produtividade, permitindo o incessante aumento das taxas de lucro dos locais onde a riqueza se concentraria.

As crises cíclicas não permitem a resolução de tais conflitos, mundializados pelo Imperialismo, apenas o controle social do processo produtivo. É a crise geral do capitalismo que cria as condições para sua destruição, quando os trabalhadores se aperceberão envoltos por contradições entre a vasta produtividade das novas tecnologias e o relativo empobrecimento de suas próprias vidas.

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